É possível (e não perigoso) criar uma Criança Vegana?

Nutrologia

Por Dr. Renato Zorzo

Nutrólogo

CRM 98.962 / RQE 69.307

Publicado em · 3 min de leituraVisualizações: 1.999

Você se preocupa com a qualidade da sua alimentação? E com a do seu filho?

A busca por um melhor estilo de vida vem crescendo nos últimos anos, e o interesse por práticas nutricionais mais saudáveis acompanha essa tendência. O veganismo é uma opção de vida que se baseia nessa filosofia. Segundo o site da Sociedade Vegetariana Brasileira (www.svb.org.br), “a filosofia do veganismo (não consumo de qualquer produto que gere exploração e/ou sofrimento animal) adota o vegetarianismo estrito no âmbito da alimentação. Por isso, costuma-se também chamar de ‘vegano’ aquele que não consome nenhum alimento de origem animal (carnes, ovos, laticínios etc.)”.

Sendo o veganismo mais um conceito filosófico do que alimentar, não é incomum vermos famílias inteiras adotando essa prática. Aí surge a pergunta: será que a dieta vegana é suficiente para o crescimento adequado de uma criança?

Para compreender essa questão, precisamos responder a duas outras perguntas:

  1. Quais nutrientes estão presentes nos alimentos de origem animal e que faltam nos vegetais?
  2. Qual é o impacto da carência desses nutrientes no crescimento e no desenvolvimento?

Muito bem. Vamos por partes.

O conceito da importância do desenvolvimento nos primeiros 1.000 dias (período que equivale à vida intrauterina mais os dois primeiros anos de vida) nos alerta para a relevância de uma boa nutrição nessa etapa e para a magnitude dos riscos que carências nutricionais nessa idade representam para a saúde ao longo da vida.

Sofia Garcia Whiteman Barranha, médica pediatra e pesquisadora da Universidade do Porto (Portugal), pesquisou o impacto da alimentação vegetariana na criança.

Sua dissertação apresentou alguns pontos interessantes.

Primeiro, vamos falar do ferro, que é um micronutriente que exerce diversas funções metabólicas. A principal fonte alimentar de ferro é a carne vermelha, que contém cerca de 3 mg de ferro por 100 g de porção. O espinafre, por exemplo, apresenta quantidade semelhante; porém, a absorção do ferro de origem vegetal (a chamada biodisponibilidade) é muito mais baixa. Isso significa que devemos ingerir uma quantidade muito maior de vegetais do que de carne para que a mesma quantidade de ferro seja absorvida.

Outro nutriente importante é a vitamina B12, encontrada quase que exclusivamente em fontes animais e fundamental para o desenvolvimento neurológico na infância. Esse nutriente é produzido por bactérias que vivem no estômago dos ruminantes e transferido para a carne, que posteriormente consumimos. Os vegetais praticamente não contêm vitamina B12.

A soja é um alimento muito utilizado como fonte proteica nas dietas vegetarianas, exercendo bem esse papel. Entretanto, os fitatos da soja dificultam a absorção de minerais como zinco, ferro e magnésio. O zinco é um nutriente cuja principal fonte também é a carne, embora leguminosas e alguns cereais funcionem como fontes desse mineral. O magnésio, assim como o cálcio, tem como principal fonte o leite e seus derivados. Bebidas leitosas preparadas com fontes vegetais, como a amêndoa, por exemplo, não apresentam a mesma quantidade desses elementos.

Os ácidos graxos da série ômega-3, nutrientes de extrema importância para a formação do cérebro e o desenvolvimento da imunidade, são provenientes de peixes e também de algas unicelulares muito específicas, que não estão disponíveis para consumo direto.

Todos esses nutrientes são fundamentais nos primeiros anos de vida. Alguns deles, como zinco, cálcio e proteínas, podem ser consumidos em quantidade adequada por meio de fontes vegetais. Entretanto, é muito difícil atingir o consumo adequado de outros, como ferro, ômega-3, vitamina B12 e vitamina D, e tais carências podem representar um risco potencial para o desenvolvimento. Portanto, crianças criadas com dieta vegetariana estrita necessitam, obrigatoriamente, de suplementação desses nutrientes. Além disso, é recomendável realizar dosagens sanguíneas dessas substâncias pelo menos semestralmente.

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